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O COVID-19 está a mudar o atendimento nos serviços de saúde materno-infantil

Esta peça apareceu no Jornal Noticas para marcar o Dia Internacional das Enfermeiras de SMI.

 

O COVID-19 está a mudar o atendimento nos serviços de saúde materno-infantil

Editorial de opinião

Por: Andrea M. Wojnar, Representante Residente, UNFPA Moçambique

As enfermeiras de saúde materno infantil salvam vidas. Elas são as nossas heroínas anónimas e, à medida que nos adaptamos aos impactos da COVID-19, é imperativo proteger, promover e priorizar a esses profissionais de saúde da linha de frente que atendem às necessidades urgentes de saúde sexual, reprodutiva e materna das mulheres e raparigas em Moçambique todos os dias.

Para marcar o Dia Internacional da Parteira, queremos reconhecer o sacrifício e o compromisso que as enfermeiras de saúde materno infantil (SMI) demonstram ao oferecer serviços de saúde essenciais para reduzir a mortalidade e morbilidade materna e melhorar a qualidade e a segurança do parto em todas as circunstâncias. As enfermeiras de SMI não apenas salvam a vida de mães e recém-nascidos, como também disseminam informações que salvam vidas e aconselham raparigas, mulheres e casais a fazerem escolhas informadas e saudáveis relacionadas à sua segurança, saúde e bem-estar.

Nos ciclones Idai e Kenneth em 2019, as enfermeiras de SMI em Moçambique tiveram que trabalhar em alguns dos ambientes mais desafiadores e exigentes para atender às necessidades de saúde e apoiar e gerir complicações na gravidez e no parto.

Reconhecemos enfermeiras como Adelaide Raul, que ajudou três partos no dia em que o ciclone Idai atingiu Moçambique. "A coisa mais difícil que experimentei naquele dia foi ter de apoiar uma mulher durante o parto, porque a sala começou a encher de água", disse a moçambicana que é enfermeira há 12 anos.

Enfermeira como Adelaide não apenas apoiam as mães durante o parto, mas também servem de inspiração para as jovens mães. Uma das mulheres que recebeu o apoio de Adelaide expressou a sua gratidão, observando: “[essas enfermeiras] nos ajudam como se o parto fosse delas... Ela ajudou-me muito, muito e espero poder ajudar outras pessoas, bem como ela me ajudou."

Mesmo em tempos de crise, gravidezes e complicações ocorrerão, tornando ainda mais importante a existência de serviços para garantir um parto seguro e saudável. Novas análises desenvolvidas pelo UNFPA e parceiros mostram que as interrupções relacionadas ao bloqueio devido ao COVID-19 durante seis meses podem deixar 47 milhões de mulheres em países de baixa e média renda incapazes de usar contraceptivos modernos, levando a um potencial de 7 milhões de gravidezes indesejadas adicionais.

Em Moçambique, com uma população baseada em 2,5 milhões de pessoas que podem precisar de apoio como resultado dos impactos do COVID-19, o UNFPA estima que cerca de 17,000 mulheres grávidas irão dar partos em unidades sanitárias nos próximos três meses. Cerca de 3,500 de todas as mulheres grávidas (dentro e fora das unidades sanitárias) e 4,700 recém-nascidos sofrerão complicações, aumentando a necessidade de acesso aos cuidados obstétricos.

Por outro lado, através de apoio e serviços amplamente prestados por enfermeiras de SMI, serão evitadas 40 mortes maternas por mês durante esse período.

O Governo de Moçambique, com o apoio do UNFPA e de outros parceiros importantes, estão a trabalhar para fortalecer, implementar e integrar a saúde sexual, reprodutiva e materna e de género nos planos de preparação e resposta ao COVID-19 para garantir a segurança, o bem-estar e proteção de mulheres e raparigas. No mês passado, por exemplo, foram instaladas tendas especiais em seis clínicas em Cabo Delgado para garantir que 6.300 mulheres e raparigas por mês tenham acesso ao planeamento familiar, bem como os cuidados pré-natal e pós-natal durante a pandemia do COVID-19.

Apesar dos desafios impostos pelo COVID-19, somos inspirados pela resiliência e pela dedicação notável demonstrada por essas enfermeiras, principalmente à medida que se adaptam a novas formas de trabalhar e prestar cuidados e apoio a raparigas, mulheres e os seus recém-nascidos.

A inovação e a tecnologia estão se tornar pilares do trabalho, pois, pela primeira vez, centenas de enfermeiras moçambicanas estão a ser formadas por meio da tecnologia online, garantindo que permaneçam atualizadas sobre os protocolos e medidas mais recentes. Outros 6.000 profissionais de saúde e enfermeiros serão treinados por vídeo usando plataformas de aprendizagem online.

Além das consultas, as enfermeiras estão a adaptar a maneira como ensinam e sensibilizam raparigas e mulheres nas unidades sanitárias sobre saúde sexual e reprodutiva, e como as mulheres grávidas, em particular, devem tomar as medidas necessárias para se prevenir da COVID-19.

Além da instalação de tendas de saúde, através do financiamento do Departamento para o Desenvolvimento Internacional do Reino Unido (DFID), da Agência Internacional de Cooperação da Coreia (KOICA) e do Governo da Flandres, o Fundo das Nações Unidas para a População  (UNFPA) apoiou o Governo de Moçambique e parceiros na formação inicial e graduação de quase 400 enfermeiras de saúde materno infantil  em várias províncias.

Um exemplo positivo dessa parceria está em Tete, onde o UNFPA, com apoio técnico da Organização Mundial de Saúde (OMS), apoiou o Governo a providenciar uma formação aprofundada baseada na qualidade para 46 enfermeiras de saúde materna e infantil durante um período de dois anos no Instituto de Formação. Em todo o país, a partir de 2018, havia mais de 6.000 enfermeiras de SMI - um aumento de mais de 40% em apenas cinco anos (Anuário Estatístico do INE).

Neste Dia Internacional da Parteira, unimos as mãos e exortamos a todos os parceiros, em todos os níveis, a trabalhar juntos para proteger e priorizar o trabalho das enfermeiras de SMI. Somente através do estabelecimento de parcerias fortes é que podemos garantir que os serviços e apoio à saúde sexual, reprodutiva e materna sejam salvaguardados e que sejam adotadas medidas para proteger esses salva-vidas da linha de frente.

Saudamos as mais de 6.000 enfermeiras de saúde materno infantil em todo o país pelos seus esforços críticos para garantir a dignidade, a saúde e o bem-estar de mulheres e raparigas em Moçambique.